O Quixote


Falo
10/07/2009, 23:12
Arquivado em: paixonite

Ela me procurou numa noite de sábado, após alguns copos virados, esperando que eu lhe desse o que desejava. Ela me abraçou, me segurou, aproximou sua boca à minha e deixou que meu impulso masculino fizesse o resto.

- Acha que está fazendo besteira? – perguntou.

- Não – respondi, enquanto pensava “sim”.

Pensei “sim”.

“Sim”, porque sabia que não possuía o que ela desejava, sabia que não seria capaz de confortá-la, sabia que não conseguiria mimá-la, sabia que meu pau jamais resolveu problema algum. Pelo contrário, a maioria dos problemas que possuo, quando causados por mim, foi conseqüência da má utilização de meu órgão reprodutor.

Mas disse “não”.

“Não”, porque todos sabem quem vence na disputa entre pau e cérebro



Se eu fosse Belchior…
10/07/2009, 15:43
Arquivado em: humor, música

Se você vier me perguntar por andei, no tempo em que você sonhava.

De olhos abertos lhe direi: Amigo, vá cuidar da sua vida.

Pois um bigode não tira minha rabugice.



Mentiras
10/02/2009, 21:52
Arquivado em: verborragia

Você vai me decepcionar

Eu sei.

E a gente continua nessa espiral.

Eu pedindo atenção, você fingindo que não vê, eu mandando à merda, você me procurando, eu pedindo atenção, você fingindo que não vê, eu mandando à procura, você indo à merda, eu fingindo a atenção, você vendo tudo, eu procurando e você mandando à merda.

O certo é que a gente roda, desce pelo ralo

E eu me decepciono.



Factótum
08/04/2009, 11:55
Arquivado em: citação

“Manny realmente sabia manejar aquele carro. Se ele apostasse nos cavalos com a mesma destreza com que dirigia, certamente era um vencedor.

- Você é casado, Manny?

- Sem chance.

- Mulheres?

- Às vezes. Mas nunca dura.

- Qual é o problema?

- Uma mulher é um emprego de turno integral. É preciso escolher sua profissão.

- Acredito que há um esgotamento emocional.

- E físico também. Elas querem trepar dia e noite.

- Consiga uma que você goste de comer.

- Sim, mas se você bebe ou joga elas pensam que isso deprecia o amor que elas sentem por você.

- Arrume uma que goste de beber, jogar e foder.

- Quem quer uma mulher assim?”

Charles Bukowski



Pecado Capital
07/11/2009, 23:09
Arquivado em: crônica

Bêbado, ele começou a vomitar palavras de desprezo sobre meu corpo desavisado. Olhei-o, perguntei de onde vinha tudo aquilo. Vinha de mim.

Vinha de minha inveja, quando o atropelei; de minha preguiça, ao ignorá-lo; de minha luxúria, ao cobiçar suas mulheres; de minha gula, ao devorá-lo; da avareza, ao negar ajuda; de minha vaidade, ao reprimi-lo; de minha ira, por tê-lo confrontado.

E foi aí que descobri a existência da unidade que julguei inexistir. A família. Embora estivesse lá, em minha cara, dela eu não fazia parte. Meu maior pecado foi esse: excluir-me de algo que me era vital.



A Rainha das Górgonas
05/25/2009, 1:31
Arquivado em: crônica

Não pense você que as palavras a seguir narram algo fora do usual, algo incomum e inesperado. Não. O relato que está por vir descreve algo que me ocorre todas as noites e, como todas as noites, se encerra pela manhã. Apenas para ressurgir com o seguinte pôr do sol.

Como em todas as noites, tento dormir, alheio ao agudo som do metrô ralando contra os trilhos a menos de 100 metros daqui. Como em todas as noites, acordo em meio ao meu sono… Às vezes graças a um toque de celular, outras com o grito de algum bêbado errante e outras com um simples pesadelo. Esta é a vez do pesadelo.

Abro os olhos, assustado, tentando não pensar no que não devo, tentando ignorar minha sina. Inútil. Levanto-me e sinto meu estomago ecoando pelo quarto. Chuto algumas das peças de roupa espalhadas pelo chão no caminho do banheiro. Acendo a luz do banheiro. Vejo uma barata a vaguear pela pia. Ela, como eu, foi arrancada de seu sono por algo que lhe ultrapassa em tamanho. Ela, como eu, é pisoteada, esmagada até a morte. A diferença entre nós é que sua tragédia é física, a minha, espiritual.

Lavo o rosto e esfrego os olhos com avidez. Eles ardem como ardiam há muito tempo atrás. Ignoro o odor de urina que o vaso ao meu lado exala, pensando apenas em meus olhos. Com medo de que minhas úlceras tenham voltado, abro caminho até a sala, onde se encontra o único espelho desta casa, em sua caótica disposição. No trajeto, derrubo alguns livros anteriormente empilhados no corredor.

Paro ante o espelho. Olho. Aproximo-me. Arregalo os olhos, querendo e, ao mesmo tempo, temendo ver algo que não gostaria de ver: as úlceras.

Não vejo.

Mas vejo algo se movendo no topo de minha cabeça. Coço-a. Nada sinto. Meu reflexo no espelho, porém, discorda de mim. Observo claramente algo a se contorcer. Como se uma mexa de cabelo subitamente tomasse vida. Volto a tocar meu couro cabeludo. Nada. No espelho, entretanto, meu duplo começa a adquirir mais uma mexa com vida. E, a seguir, outra. E outra. E outra. Até que cada fio, reunidos em grossos amontoados de cabelo, toma consciência de sua existência e se levanta em meu crânio, suspendendo-se milagrosamente. Assim, as mexas sibilam contra mim. Meu reflexo assume outra expressão. A de desaprovação. A de ódio decadente. A de nojo.

Eu permaneço em frente ao espelho. Petrificado.

É uma noite como outra qualquer.



O Preço da vida
03/29/2009, 21:42
Arquivado em: paixonite

Admito que vivo morrendo.

Morrendo de exagero, morrendo de amor, morrendo de medo e morrendo de saudade.

Morrendo de tesão, morrendo de paixão e morrendo de vontade.

Morrendo de fossa, morrendo de raiva e morrendo de embriaguez.

Morrendo de sono, morrendo de ressaca e morrendo de morbidez.

No final, morro mesmo vivendo.



A Máquina
03/24/2009, 11:03
Arquivado em: citação

“E foi mesmo na frente da igreja que a vida de Antônio deu uma volta medonha, pois, no que viu Karina, seu coração disse pra sua cabeça, , e sua cabeça disse pra sua coragem, vou, e sua coragem respondeu, vou nada, mas sua boca não ouviu e beijou Karina bem ali, no meio da praça, e a boca de Karina não disse não, e nem poderia, pois estava por demais ocupada.”



Insônia e o Buraco no Universo
03/07/2009, 18:20
Arquivado em: crônica, humor

- Alô, assistência técnica? – perguntou Jarbas, afoito, quando percebeu que sua ligação fora completada.

- Sim!? – respondeu a pessoa ao outro lado da linha.

- Olha, ahm… – voltou a dizer Jarbas, procurando palavras para se expressar – Bem, desculpe, mas estou procurando palavras para me expressar. – como podem ver, eu já tinha adiantado isso.

- Tudo bem, basta estar me dizendo qual é o problema. – disse o assistente em tom afável.

- Bem, tem um… ahm… “buraco” na minha geladeira. – respondeu Jarbas.

- Buraco?

- Sim, mas não qualquer buraco. Eu abri a geladeira há uns 15 minutos e havia uma fenda no espaço-tempo lá…

- Uma fenda no espaço-tempo? – perguntou o homem.

- Sim, uma fenda no espaço-tempo. – confirmou Jarbas.

- E de que tipo é?

- Como assim “de que tipo é?” ? – Jarbas começava a indignar-se com o sujeito – Olha, estou começando a me indignar…

- Bem, acalme-se. O quero dizer é que existem inúmeros tipos de fendas no espaço-tempo diferentes. Existem as triangulares, as octogonais… Algumas aparecem até como um grande vórtex. – explicou o sujeito.

- “Vórtex”?

- Isso, “vórtex”, ou “vórtice”, é um escoamento turbulento giratório onde as linhas de corrente apresentam um padrão circular ou espiral. São movimentos espirais ao redor de um centro de rotação. Essas fendas costumam “sugar” todo corpo com massa inferior a 2 kg existente no cômodo em que surgem.

- É, é isso mesmo! É um vórtomox! Ele sugou meu gato!

- Seu gato?

- Sim, o Sr. Pantufas!

- Sr. o quê?

- Pantufas! Pan-tu-fas!

- Que raio de nome é esse?

- Vem cá, dá pra dizer logo o que diabo eu devo fazer?

- Claro, você tem um pouco de tofu aí?

- Tofu? – perguntou Jarbas enquanto tentava se recordar de quais queijos comprara no dia anterior – Tenho, mas estava dentro da geladeira…

- Xi…

- Mas eu tenho algumas sardinhas aqui…

- Ok, dá para estar fazendo um macarrão com sardinhas delicioso…

- Mas como isso vai me ajudar a fechar o buraco?

- Ah, você quer fechar o buraco? Pensei que quisesse apenas algo para fazer no meio da noite…

Jarbas permaneceu em silêncio por alguns minutos, tentando conter o ímpeto de dirigir até o outro lado da cidade e surrar metade do departamento de assistência técnica daquela empresa. Empresa tal que chamarei apenas de “daquela empresa” por motivos de força maior, tais como royalties e merchandising indevido.

- Bem, se fosse um buraco octogonal poderíamos simplesmente ignora-lo. No caso de um triangular, bastaria colar um pedaço de chiclete ao fundo de sua geladeira… Mas como é um vórtex, teremos de enviar um técnico até sua residência.

- Ok, vai me custar?

- Uhum…

- Certo – resmungou Jarbas – E quando ele vem?

- Deixe-me ver – disse o assistente e digitou algo durante 15 minutos, quando finalmente voltou a falar – Olha, pedimos que o senhor aguarde em sua residência, pois estaremos mandando um técnico entre o dia de amanhã e a páscoa do ano seguinte.

- Como é? Eu tenho de esperar tudo isso???

- Infelizmente sim. Problemas de fendas no espaço-tempo em refrigeradores “daquela empresa” são comuns, hoje em dia. Por isso receio estarmos enviando todos nossos técnicos a outras residências neste exato momento. Mas assim que um deles estiver terminando seu trabalho, estarei enviando-o à sua casa. Isso é, se o senhor ainda estiver colaborando…

- Put* merda! – disse Jarbas.

- Como é? – perguntou o assistente.

- Desculpe, o escritor colocou um asterisco no meio do meu palavrão, eu disse: Puta merda!

- Ah, sim… Estamos recebendo muitos asteriscos e palavrões como esses hoje em dia.

- Olha, esquece que eu liguei, ok? Eu vou comprar outro gato e outra geladeira…

- Tem certeza que não prefere estar esperando pelo técnico?

- Tenho! – disse Jarbas ao desligar.

Jarbas, porém, esquecera que seu emprego como consultor de passadeiras não pagaria outra geladeira. Assim, quando se lembrou deste triste e singular fato, teve de se habituar a ter uma fenda no espaço-tempo dentro de seu refrigerador. Habituação nada difícil devo acrescentar. O problema mesmo era descobrir por que diabos seu leite amanhecia azedo. Mas aí é outra história.



Magnetic Fields
03/07/2009, 12:29
Arquivado em: música

’cause I always say I love you
When I mean turn out the light.
And I say let’s run away
When I just mean stay the night.
But the words you want to hear
You will never hear from me.

I’ll never say “Happy anniversary.”
Never stay to say “Happy anniversary.”

So I think I need a new heart. Ohhh
I think I need a new heart. Ohhh