O Quixote


A Inexorável Supernova
01/27/2010, 20:56
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Parte 1


Lena diz:

∙ oi

∙ tai?

M diz:

∙ olá

Lena diz:

∙ tudo bom???

M diz:

∙ bem… e vc?

Lena diz:

∙ também!

∙ saudades!!

∙ ta bem mesmo?

M diz:

∙ sim

Lena diz:

∙ aaaaaah!!!

∙ ouvi a banda!!!

∙ precisava te falar

∙ adorei.

M diz:

∙ que banda?

Lena diz:

∙ aquela que vc passou

∙ boyqualquercoisa

M diz:

∙ The Boy Least Likely To?

Lena diz:

∙ isso!!!

∙ adorei

M diz:

∙ massa, né

Lena diz:

∙ siiim!

∙ gostei da letra

∙  So just be gentle with me
(And if I am ever mean)
And I’ll be gentle with you
I never mean to be mean

M diz:

∙ qual?

Lena diz:

∙ falei agora

∙ “just be gentle with me”…..

M diz:

∙ hm…

∙ prefiro “Monsters”

Lena diz:

∙ qual é essa?

M diz:

∙ And the thing that really frightens me
Is that the people I used to love
Are turning into monsters

Lena diz:

∙ …

M diz:

∙ ??

Lena diz:

∙ ok…

M diz:

∙ é…



A Cova
01/17/2010, 3:17
Arquivado em: paixonite

Assim que a avistei, pensei que não poderia morrer sem confrontá-la.

Tomei coragem num copo, depois outro, depois outro.

Então ela me disse as palavras certas,

E as frases que eu adoraria ouvir,

E as inflexões  pelas quais eu ansiava.

Logo percebi, era melhor morrer sem conhecê-la.



O Oceano
12/28/2009, 22:47
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Ela chega, me cumprimenta e, ao se abaixar, uma mecha de cabelo se solta.

Eu sinto meus pés molhados darem um passo à frente, a areia úmida sob eles.

Ela arruma o cabelo enquanto se senta, agarra o cardápio e se põe a escolher uma bebida.

Eu sinto algumas ondas batendo em minhas pernas.

Ela sorri, seu rosto se contrai e o cardápio se abaixa.

Eu ofego, sinto a água atingir meu peito.

Ela me olha, finalmente, e me olha fundo.

Eu afundo e luto para emergir.

Ela não se incomoda com meus olhares fugidios.

Eu me debato para permanecer na superfície.

Ela ri mais uma vez.

Eu sou engolido pela água.

Ela diz “senti falta disso”.

Eu tento nadar de voltar à margem.

Ela percebe minha relutância.

Eu dou uma, duas braçadas.

Ela toca minha mão.

Eu insisto em nadar, mesmo levado pela correnteza.

Ela se aproxima e me beija a bochecha.

Eu me entrego, e me afogo.



Falo
10/07/2009, 23:12
Arquivado em: paixonite

Ela me procurou numa noite de sábado, após alguns copos virados, esperando que eu lhe desse o que desejava. Ela me abraçou, me segurou, aproximou sua boca à minha e deixou que meu impulso masculino fizesse o resto.

- Acha que está fazendo besteira? – perguntou.

- Não – respondi, enquanto pensava “sim”.

Pensei “sim”.

“Sim”, porque sabia que não possuía o que ela desejava, sabia que não seria capaz de confortá-la, sabia que não conseguiria mimá-la, sabia que meu pau jamais resolveu problema algum. Pelo contrário, a maioria dos problemas que possuo, quando causados por mim, foi conseqüência da má utilização de meu órgão reprodutor.

Mas disse “não”.

“Não”, porque todos sabem quem vence na disputa entre pau e cérebro



Se eu fosse Belchior…
10/07/2009, 15:43
Arquivado em: humor, música

Se você vier me perguntar por andei, no tempo em que você sonhava.

De olhos abertos lhe direi: Amigo, vá cuidar da sua vida.

Pois um bigode não tira minha rabugice.



Mentiras
10/02/2009, 21:52
Arquivado em: verborragia

Você vai me decepcionar

Eu sei.

E a gente continua nessa espiral.

Eu pedindo atenção, você fingindo que não vê, eu mandando à merda, você me procurando, eu pedindo atenção, você fingindo que não vê, eu mandando à procura, você indo à merda, eu fingindo a atenção, você vendo tudo, eu procurando e você mandando à merda.

O certo é que a gente roda, desce pelo ralo

E eu me decepciono.



Factótum
08/04/2009, 11:55
Arquivado em: citação

“Manny realmente sabia manejar aquele carro. Se ele apostasse nos cavalos com a mesma destreza com que dirigia, certamente era um vencedor.

- Você é casado, Manny?

- Sem chance.

- Mulheres?

- Às vezes. Mas nunca dura.

- Qual é o problema?

- Uma mulher é um emprego de turno integral. É preciso escolher sua profissão.

- Acredito que há um esgotamento emocional.

- E físico também. Elas querem trepar dia e noite.

- Consiga uma que você goste de comer.

- Sim, mas se você bebe ou joga elas pensam que isso deprecia o amor que elas sentem por você.

- Arrume uma que goste de beber, jogar e foder.

- Quem quer uma mulher assim?”

Charles Bukowski



Pecado Capital
07/11/2009, 23:09
Arquivado em: crônica

Bêbado, ele começou a vomitar palavras de desprezo sobre meu corpo desavisado. Olhei-o, perguntei de onde vinha tudo aquilo. Vinha de mim.

Vinha de minha inveja, quando o atropelei; de minha preguiça, ao ignorá-lo; de minha luxúria, ao cobiçar suas mulheres; de minha gula, ao devorá-lo; da avareza, ao negar ajuda; de minha vaidade, ao reprimi-lo; de minha ira, por tê-lo confrontado.

E foi aí que descobri a existência da unidade que julguei inexistir. A família. Embora estivesse lá, em minha cara, dela eu não fazia parte. Meu maior pecado foi esse: excluir-me de algo que me era vital.



A Rainha das Górgonas
05/25/2009, 1:31
Arquivado em: crônica

Não pense você que as palavras a seguir narram algo fora do usual, algo incomum e inesperado. Não. O relato que está por vir descreve algo que me ocorre todas as noites e, como todas as noites, se encerra pela manhã. Apenas para ressurgir com o seguinte pôr do sol.

Como em todas as noites, tento dormir, alheio ao agudo som do metrô ralando contra os trilhos a menos de 100 metros daqui. Como em todas as noites, acordo em meio ao meu sono… Às vezes graças a um toque de celular, outras com o grito de algum bêbado errante e outras com um simples pesadelo. Esta é a vez do pesadelo.

Abro os olhos, assustado, tentando não pensar no que não devo, tentando ignorar minha sina. Inútil. Levanto-me e sinto meu estomago ecoando pelo quarto. Chuto algumas das peças de roupa espalhadas pelo chão no caminho do banheiro. Acendo a luz do banheiro. Vejo uma barata a vaguear pela pia. Ela, como eu, foi arrancada de seu sono por algo que lhe ultrapassa em tamanho. Ela, como eu, é pisoteada, esmagada até a morte. A diferença entre nós é que sua tragédia é física, a minha, espiritual.

Lavo o rosto e esfrego os olhos com avidez. Eles ardem como ardiam há muito tempo atrás. Ignoro o odor de urina que o vaso ao meu lado exala, pensando apenas em meus olhos. Com medo de que minhas úlceras tenham voltado, abro caminho até a sala, onde se encontra o único espelho desta casa, em sua caótica disposição. No trajeto, derrubo alguns livros anteriormente empilhados no corredor.

Paro ante o espelho. Olho. Aproximo-me. Arregalo os olhos, querendo e, ao mesmo tempo, temendo ver algo que não gostaria de ver: as úlceras.

Não vejo.

Mas vejo algo se movendo no topo de minha cabeça. Coço-a. Nada sinto. Meu reflexo no espelho, porém, discorda de mim. Observo claramente algo a se contorcer. Como se uma mexa de cabelo subitamente tomasse vida. Volto a tocar meu couro cabeludo. Nada. No espelho, entretanto, meu duplo começa a adquirir mais uma mexa com vida. E, a seguir, outra. E outra. E outra. Até que cada fio, reunidos em grossos amontoados de cabelo, toma consciência de sua existência e se levanta em meu crânio, suspendendo-se milagrosamente. Assim, as mexas sibilam contra mim. Meu reflexo assume outra expressão. A de desaprovação. A de ódio decadente. A de nojo.

Eu permaneço em frente ao espelho. Petrificado.

É uma noite como outra qualquer.



O Preço da vida
03/29/2009, 21:42
Arquivado em: paixonite

Admito que vivo morrendo.

Morrendo de exagero, morrendo de amor, morrendo de medo e morrendo de saudade.

Morrendo de tesão, morrendo de paixão e morrendo de vontade.

Morrendo de fossa, morrendo de raiva e morrendo de embriaguez.

Morrendo de sono, morrendo de ressaca e morrendo de morbidez.

No final, morro mesmo vivendo.